Eu não uso WhatsApp

Imagem

 

Eu não sei exatamente em que momento eu fiquei ultrapassada. Sou quase uma analfabeta digital, meu deus, eu tenho 20 anos e já fiquei pra trás. Demorei uma eternidade pra aprender a baixar um filme sem instalar três novas barras de ferramentas e zero filmes.

No geral as pessoas olham com um olhar de surpresa e “Como assim?” ou “Sério?”. Pois é, eu tenho um Nokia 500 com o botão do volume estragado, todo riscado e que foi adquirido pela minha pessoa antes mesmo do “boom” dos aparelhos com sistema android. Ter esse modelo de aparelho celular até hoje não foi uma escolha pessoal, mas no momento eu realmente agradeço e prefiro assim.

O “Whats” tem algumas funções realmente ótimas, mas que fodem com vida da gente. As pessoas estão conectadas o tempo todo com os amigos e ao mesmo tempo não estão. Agradeço por ter um bando de amiga fodida que também não tem um aparelho celular que comporte o WhatsApp, e ao menos quando nos reunimos, nenhuma fica ao celular dando atenção especial ao que não se faz presente e esquece de apreciar aquele momentinho só nosso.

Se conectar é bom, é ótimo na verdade, mas se eu estivesse conectada o tempo todo as vezes eu esqueceria de apreciar certas coisas que são fundamentais pra mim em troca de frivolidades online.  As vezes precisamos aproveitar em off, dar um reset na vida virtual e quiçá ir dar um banho no cachorro, ou sei lá ver um filme com alguém.

As vezes nos sentimos tão sozinhos no “mundo real”, que o mundo virtual vira uma bolha de segurança o qual passamos dar essencial atenção. Já tive meus momentos e digo que me desconectar as vezes é ótimo também, você não precisa contar às pessoas todos os momentos e detalhes da sua vida. Não existe poesia na vida, se ela é vivida atrás de um smartphone.

Essa minha fase de – menos tretas mais trutas – tá sendo ótima e a vida é muito mais bonita quando a gente não fica o dia todo com um celular na mão. A vida é poesia touchbody.

Há quem diga que se você não tem WhatsApp você não existe. Que pena meus senhores, que pena.

Anúncios

Monólogos de Capitu II

Certa vez tive ciência de que eu era uma criação masculina. Tudo o que se conhecia de mim havia sido dito por homens, e sobre meus ombros estava a imagem negativa da mulher adúltera.

Dos olhos de Bento Santiago me fizeram.

VAGABUNDA!!!

Ah, a moral do homens, estes homens de bem também adúlteros. Eu não me importo com a moral de vocês.

Mas quem diabos disse a vocês homens que deveriam fiscalizar e repreender a minha sexualidade (ou a de qualquer uma outra)? Emancipar-me-ei.

E Tu Bento? Me caracterizou com milhares de qualidades que mais tarde intencionalmente se fizeram armadilha sem nenhuma possibilidade de defesa.  E a mim coube o silêncio. A mim coube a figura da mulher que destrói a vida e a reputação de um homem. Eu não sou tua subalterna, Bento.

Mas você era o homem detentor da palavra e a mim só cabia a fúria nos olhos. Me condene ao teu desprezo, mas não me prenda a ti, não sou teu objeto. Eu não sou tua.

A mulher transgressora é punida, é taxada, afim que se mantenha a ordem social. Eu não sou tua.

O espaço da mulher é reservado pela expectativa criada por uma ideologia autoritária e patriarcal. A nenhuma delas é possível sair de seu espaço restrito para se aventurar num mundo mais amplo, da realização pessoal. Um autor masculino que fala por mim. Eu não sou tua.

“Tenho-me de volta agora.
Recuperei-me.
Ninguém há de me tirar de mim.”

Desabafo de uma Pré-Vestibular Cotista

Sobre aquilo que você se recusa a pensar

  vestibular-fuvest-sp-size-598         

 Vou começar o texto com algumas informações preliminares. Caso você não goste delas, se sinta ofendido, não se interesse pelo texto ou coisa parecida, por favor, não perca seu tempo com essa leitura e muito menos com comentários agressivos. Obrigada.

  1. Escrevo aqui com o intuito de descrever situações vividas por mim, portanto, não incluo aqui a voz de ninguém que não seja eu mesma.
  2. Esse texto não pretende tratar das cotas raciais, mas não porque eu não concorde com elas (eu concordo) e sim porque não sou negra, mulata, parda, indígena, afrodescendente ou amarela. Assim sendo, nunca sofri preconceito racial de nenhum tipo e, portanto, não tenho condições de exprimir com fidelidade os sentimentos de um pré-vestibular que tenha passado por isso.

Presto Medicina. Estudei na ETEC Parque da Juventude durante meu ensino médio. No meu terceiro ano (ano passado), estudava de…

View original post mais 1.730 palavras

LUTO ENQUANTO MULHER NEGRA

Image

O que me faz mulher?

Me descobri mulher antes de me descobrir negra.

O que me faz mulher?

Me descobri mulher quando me vi vítima do machismo, quando me descobri subjugada pelo meu opressor.

A mulher é uma construção social masculina, homens dizendo o tempo todo o que é ou não uma mulher. Homens classificando mulheres (eu poderia ser uma mulher pra casar, uma mulher pra trepar ou ficar pra titia). Homens definindo meu papel social, o de subgênero. Eu seria tolerada quando santa e abominada quando puta.

A mulher sozinha na rua é considerada alguém sem dono. Eu sabia que era mulher cada vez que era assediada, cada vez que tive medo de ser estuprada ao voltar sozinha pra casa à noite. Cada vez que temi pela minha vida, eu sabia que era mulher.

Me tornar mulher foi uma construção de fácil assimilação, tenho minha mãe que sempre teve pulso firme, tinha professoras mulheres nas quais me espelhei, li grandes escritoras, havia heroínas mulheres no cinema e nas revistas.

Então eu sabia que eu era mulher. Identifiquei minha luta enquanto mulher.

Mas minha luta era maior.

Por que a primeira coisa que reparavam em mim era a cor da pele?

Eu não era só mulher, era mais que isso. Tinha mais que isso em mim. Mas onde estavam as iguais a mim?

Minha mãe não é negra, nunca tive professoras negras, minhas médicas não eram negras, minha boneca não era negra, a protagonista do filme não era negra, as heroínas também não. Onde estariam aquelas nas quais eu iria me espelhar?

Devido ao fato de ter o privilégio da classe média, durante maior parte da minha vida só conheci o racismo velado. O racismo disfarçado de elogio, o racismo disfarçado de curiosidade, “você não liga de ser mais escura que as suas irmãs?”.

Mas então eu descobri o feminismo negro, descobri mulheres negras nas quais identifiquei minha luta.

Então eu já sabia que lutava enquanto mulher e dali eu sabia que minha luta era maior, minha luta era enquanto mulher negra.

Toda mulher de alguma forma sofre com violência decorrida do machismo, mas a mulher negra trava a batalha diária contra a desumanização e a hipersexualização da cor da sua pele. Se a mulher branca está à mercê do machismo, à mulher negra é imposta a qualidade de objeto a uso de qualquer um, a mulher negra enfrenta o racismo institucional, a mulher negra é uma segunda alternativa, é o pecado em cor.

Agora luto. Luto enquanto mulher, luto enquanto mulher negra e esse é meu lugar de fala do qual não fujo.

CARTA ABERTA AO CENTRO ACADÊMICO SETE DE MARÇO DIREITO-UEL

É de praxe, nos trotes dos calouros do Direito da UEL, ocorrer o que se chama de “miss moedinha”. Trata-se de uma prática realizada pelos acadêmicos do referido curso, que consiste em um “concurso” onde as meninas, calouras, são incitadas a subir numa mesa e pegar uma moeda na superfície sem dobrar os joelhos, cercadas por veteranos que gritam palavras como “gostosa”, “peitão”, entre outras igualmente ou mais desagradáveis, e após alcançá-la, as calouras são leiloadas entre os veteranos presentes.

É fato que trotes machistas como o “miss moedinha”, bem como outras ações degradantes a título de trote, se reproduzem em escalas nacionais. A Universidade não é zona isenta dos valores socioculturais observados no corpo social, entretanto, sempre se esperou dela que estivesse à frente das mudanças e da desconstrução das opressões, exclusões e preconceitos. De forma diversa, muitas vezes, é na Universidade que se observam exemplos pragmáticos de perpetuação do status quo e do pensamento hegemônico.

Por meio desta carta, defendemos que as evoluções e as conquistas realizadas no campo social, político e jurídico precisam se realizar concretamente em mudanças de tradições retrógradas dentro e fora da Universidade. É inaceitável que em uma Universidade, especialmente no Curso de Direito, local onde se espera haver consciência em relação aos direitos da mulher, ainda exista a reprodução tão forte de valores objetificantes da figura feminina, perpetuando-se a função histórica da mulher ao que pretendiam os homens, conforme lhes fosse útil ou desejável.

O acesso ao Ensino Superior, tradicionalmente, tem sido restrito às classes dominantes. Se assim ainda o é, porém em menor escala, nos dias de hoje, imaginemos o quadro dos alunos universitários de 20, 30 anos atrás. As opressões calcificadas em “tradições”, de certa forma, sempre reproduziram a mentalidade de classes historicamente privilegiadas. A Universidade de 30 anos atrás não pode ser a Universidade que queremos hoje. Sob a égide de respeitar uma tradição machista, abriremos mão do tratamento igualitário entre homes e mulheres, o respeito à aos direitos humanos? Ou essas são ideias que se ficam restritas à sala de aula?

Eventos como “miss moedinha” colocam em debate a objetificação da mulher, bem como desprestigio da palavra feminina, muitas vezes sendo “convencida” insistentemente a participar desse evento. Dispor o corpo feminino como objeto a ser leiloado pela performance que realiza ao tentar pegar uma moeda cercada por homens não pode, nos dias de hoje, continuar a ser encarado com toda naturalidade do mundo.

A professora do Departamento de Antropologia da USP e especialista em estudos de gênero, Heloísa Buarque de Almeida, ressalta que “Um trote no qual as meninas se sentem obrigadas a fazer coisas humilhantes e que as coloca como objeto sexual é um algo machista, misógino e violento”. Vale lembrar que o machismo não está só nas violências explícitas, mas se faz presente também de forma mais sutil, na violência simbólica que vem sendo naturalizada. O ambiente acadêmico não pode apenas reproduzi-la, devendo ser um espaço de crítica e conscientização contra as opressões.

Ademais, alertamos para a importância de combater as práticas entre veteranos e calouras, que reproduzem entre si uma relação medieval de subserviência e obediência que pode culminar em ações abusivas, como acreditamos ser o “miss moedinha”. Apesar do discurso de que “ninguém é obrigado a participar”, as mulheres são incitadas a fazê-lo, pois há o mito de que quem não se submete ao trote não consegue se enquadrar no ambiente universitário, já que é tido como “o chato”, “o careta”. A atividade promove a submissão feminina e se embasa na insegurança diante de pessoas novas e estranhas.

Portanto, entendemos, também, que esta atividade pode ser desconfortável até para os que advogam que ela é aceita livremente, uma vez que o poder de autodeterminação pessoal se choca com o novo ambiente universitário em que o calouro pretende ser aceito. Nesse contexto, muitas vezes, as pessoas se submetem a situações de extremo desconforto, como esta, por quererem se “enquadrar” no novo ambiente de que farão parte pelos próximos cinco anos.

Queremos fazer este debate dando valor à voz feminina sobre a situação para que, despidas do domínio da voz dos homens e em reais condições de analisar livremente a questão, decidam por si mesmas o que pensam sobre essa atividade. Além disso, nos próximos trotes, pretendemos fazer uma ação direta de conscientização a este respeito, para que as mulheres se sintam verdadeiramente amparadas caso não desejem participar.

Nós, como acadêmicas do curso de Direito da Universidade Estadual de Londrina – UEL, solicitamos através da presente carta aberta um posicionamento do Centro Acadêmico em relação ao “miss moedinha”. Somos mulheres, que não desejam falar em nome de todas, mas que querem desconstruir as opressões milenares sobre nosso gênero, também no ambiente universitário. Assim como o machismo, o racismo e a homofobia são combatidos fora da Universidade, precisam se estender a ela.

MEU NOME É ELOÁ

Imagem

 

 

 

Eloá, quinze anos.

Fui sequestrada e assassinada pelo meu ex-namorado que não queria o fim do namoro.

 

ELOÁ, SUA VADIA!

VAGABUNDA!

 

 

Crime passional disseram. Lhes disseram que ele tinha o direito de se achar meu dono. Lhes disseram que eu deveria aceitar. Lhes disseram que a culpa era minha. Eu confiei, logo a culpa era minha. Me fizeram réu num tribunal onde o juiz era júri e o júri por sua vez era misógino¹.

De um modo ou de outro, em certo momento somos todas uma só. Somos uma só toda vez que temos nosso gênero usado como motivo para opressão e domínio masculino sobre nós. Somos um só corpo a cada 5 minutos quando uma mulher é agredida no Brasil. Somos uma só toda vez que negar ou ceder se torna motivo para agressões sejam elas físicas ou verbais. Somos uma só toda vez que temos nosso corpo objetificado. Sou Eloá todos os dias.

 

Somos Todas Eloá.

Escreva Eloá.

 

 

¹Misoginia: ódio, desprezo ou repulsa ao gênero feminino. Base importante para a opressão de mulheres em sociedades dominadas pelo homem.

Um texto sobre a minha ânsia e das pessoas que amo.

Imagem

De fato, decidi: não quero a felicidade de vocês. Não essa que se vende por ai em toda esquina, em toda maldita propaganda de televisão.

Não sou obrigada a ser feliz nos moldes que vocês me dão. Eu não quero. Dispenso, até mais, obrigada.

Ser feliz se tornou obrigação e, veja bem, eu não sou o tipo de pessoa que gosta de ser mandada. A felicidade, segundo a lei capitalista sobre, só é válida se for pendurada no meio da minha cara, escrito bem grande em neon e purpurina.

Eu perdi o meu direito de sofrer, de desistir. “Não desista nunca”, me disseram. Ora, eu desisto se quiser. Cansei. Não quero mais. EU TENHO O DIREITO DE FRACASSAR. A sociedade me enfiou goela abaixo a obrigação de andar com um sorriso simpático a todo instante e, poxa vida, já me deu câimbras no rosto.

Hoje em dia ninguém pode ficar na fossa. O sujeito levou um pé na bunda, perdeu o emprego, foi atropelado, quebrou dois dentes, mas “Abre um sorriso ai amigo, pelo menos tá vivo. Superação.”.

Não é de se espantar que livros de autoajuda estejam entre os mais vendidos ou que as filas nos psicólogos, psiquiatras, psicanalistas só aumentem. A obrigação de ser feliz vem nos tornando cada vez mais infelizes.

Não é à toa que já nascemos chorando e é chorando que vamos passando pela vida. A premissa de que nós colhemos somente o que plantamos é falha. Ninguém é obrigado a retribuir a dedicação que damos, nem que isso faça nos sentir miseráveis, ninguém é obrigado a amar ninguém, a promover ninguém, a permanecer com ninguém. Não se pode controlar. Não se controla a vida, nem a felicidade.

A vida, essa maldita, vai nos virar as costas uma infinidade de vezes. E agora, José? O que fazemos? Mandinga? Reza brava? Nada. Você não faz nada, só te resta entender que a vida é assim, cheia de altos e baixos. O “felizes para sempre” não existe e nenhuma tristeza é eterna, assim como nenhuma forma de felicidade. E mais importante que tudo isso é saber aproveitar tanto os momentos bons, quanto os ruins.

A felicidade, meus amigos, é um segundo. É aquele pequeno espaço de tempo no meio de toda essa bosta que é a sua vida, e é por isso que ela vale a pena.

Sobre as pessoas que amo: não me cabe expor seus nomes, mas quero que saibam que apesar da depressão, das crises de pânico, das crises de ansiedade e do transtorno bipolar, eu amo todas vocês, são pessoas maravilhosos e eu não quero que a tristeza vença.

E sobre a minha ânsia: I choose life.